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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Espelho

É incrível, mas é verdade. O tecido social português é o mais tangente atestado da secular mediocridade em que vegeta a nossa nação. Travamos batalhas infindas contra vagas de aneurismas populares para edificarmos, infatigavelmente, um sistema judicial supostamente cego a credos, ideologias e grupos corporativistas, estes últimos, sempre obstinados no proveito de privilégios naturalmente atribuídos pela divina providência. Não obstante, e apenas um século após o fim da multi-secular putrefacção monárquica que assolou a nossa pátria, persistem exemplos de um inexplicável absolutismo, requintado, sofisticado e determinado na tentativa de controlar, explicita ou implicitamente, a mais poderosa das armas do século XXI, a comunicação social. Com todos os defeitos e virtudes, a justiça tenta prosseguir. Tal como um rio, o percurso dos procedimentos deve fluir na obediência aos naturais meandros que, legal e institucionalmente confronta. Porém, nesta torrente fluvial, persistem rochas residuais de contradição cívica. O “sol” que irradia o rio, não está mandatado para desviar o seu curso. O estado de direito não é, decerto, iluminado. Mas não poderá, jamais, ser ofuscado. Se o rio judicial padece de águas conspurcadas, também é certo que o “sol” irradia luz negra, ao ignorar directrizes do maior sustentáculo da nossa democracia. E mãos, vozes e escritos se erguem, aludindo a clichés, não raras vezes segregacionistas, e em apreciações destrutivas daquilo que acaba, afinal, por ser o espelho da nossa sociedade.